Que palavras descrevem com verdade a sensação de não ser nada?
De não ter nada, de olhar para o lado e não ver sequer uma sombra, um reflexo.
Não existem palavras suficientes para descrever.
Nestes dias em que a própria vida parece querer desmoronar, em que os elementos se conjugam para alimentar o caos, nem o tempo resiste à imponderabilidade das coisas.
Nestes dias as palavras são absolutamente nada!
Parece demasiadamente fora do contexto a que pachorrentamente nos vamos habituando. Há aqui algo de despropositado, como se estivesse a forçar algo, a empurrar para a vida uma coisa que não pode existir, que aos olhos frágeis do humano não tem realidade, como quando tentamos voltar a por uma rolha numa garrafa, sem conseguir.
Um Quixote lutando contra moinhos-gigantes.
Lá fora os sons do dia volteiam pelo ar iluminado da manhã, as pessoas continuam, ninguém se apercebe...
“Tudo tem o termo para que corre,
como os seres a própria morte morre.”
Era qualquer coisa assim que escreveu Al-Mu’tamid à quase mil anos atrás.
Com que passos caminhou esta frase até mim. Que vento a transportou dos desertos da história até este mar, nesta ilha?
Quantas frases sobreviverão outros mil anos quando as palavras não são nada? Não encontro resposta.
Não existe maneira de roubar um rosto, nele a verdade. Olhar para ele no meio de uma multidão não é uma hipótese. Desenhá-lo, esculpi-lo, fazê-lo palavras, nada traria consigo a verdadeira resposta desse rosto.
Outra vez, mais uma vez, lá está, uma vontade enorme de repetir, de me repetir.
Há uma enorme ausência nisto tudo, uma ânsia pelo abismo, abrir as velas e navegar os infinitos desconhecidos.
Há nisto uma repetição de passados e de desejos futuros, um elo a mais na corrente da vida, um segundo mais na História do Tempo.
Quem navega comigo?
Mais para lá do Universo um outro desejo navega também.
Depois, pouco ficará que possa resumir o caminho, será preciso escavar a memória para encontrar um destino que sirva. Só na ausência de resposta está a resposta, se é que ela existe. Eu já não sei.
Não me interessa escrever, não pretendo descrever, descrever-me, nem contar, surripiar estórias, ou pensar que posso surripiar estórias e que sou tão bom a reter segundos em folhas brancas, nada disso me interessa. Se não pode ser o Universo a escrita não me interessa.
Quem quiser um sentido, viva. Não me peçam a mim que seja o romancista, o novelista, o realizador de cinema, o cientista...
A única realidade que me atrai é uma estrela que passa e uma humanidade que morre e um sol a milhões e milhões de espaço-tempo de distância que nasce e vive e se destroi antes mesmo deste mundo existir.
E se tudo isto parece tão distante que parece irrelevante pois que o seja, porque se não for no Universo na terra é que não será de certeza.
Quem sabe mais do que os cérebros que me aguarde, de uma forma ou de outra lá chegarei, nem que seja com a morte...
Será por estar sol lá fora que vou deixar de ser este registo? Que vou deixar de me repetir? Será por não haver uma fórmula pré-defenida? Por ao destapar a caneta tinta correr pelo bico? Por ao carregar nas teclas símbolos surgirem no écran? Por causa do sangue, vontade de escrever? Será que cortando os pulsos a caneta, o liquido, as teclas, fluirão sem sobressaltos? As palavras e um rio?
Não, não há aqui nada para ver! Dispersem, dispersem! Move on, move on! Como no Blade Runner.
Parado diante da imagem que o meu corpo reflecte na água, a imagem dos meus olhos nos meus olhos.
Um ponto de partida.
Se o meu corpo reflectido se levantasse da água e, escorrendo, falasse eu ouviria palavras antes ou depois de pensá-las?
Uma hipótese de escrita.
Um molho de sílabas como um ramo de flores, ou um cacho de uvas, ou bananas com queijo e eu não gosto de queijo. Tenho intolerância à lactose. O bom e o mau, como tudo na vida, juntos no mesmo prato.
E ao longe pessoas morrem de fome como outras morrem de tédio ou de amor. Junto do lago rodeado de verde por todos os lados, espelhado o céu no agitar imperceptível das águas eu não morro mas penso no fim que se aproxima enquanto eu me aproximo.
Deixar cair a cabeça para o lado, sobre o ombro, ligeiramente para trás, baloiçando, como se uma mola substituísse o pescoço, como um desses bonecos que saltam de dentro de caixas e com a mão sobre o rosto olhar entre os dedos o infinito e o interior do corpo. Por detrás dos olhos o interior do pensamento.
Como quando fumas um cigarro e no fumo que te sai da boca e se levanta em pequenas nuvens pelo ar procurasses a escrita do Tempo, os signos etéreos da eternidade.
Hieróglifos que depois de decifrados respondessem.
A primeira palavra é a que resiste mais em aparecer. Não basta ser Verbo para ser início.
Em cada golo um desejo de naufrágio, em cada trago um gosto de esquecimento, um afogar lento e gradual no oceano do copo. Água salgada nos pulmões. O álcool como o oceano vasto e vazio. A ressaca, a tempestade.
No interior, na parte mais inacessível, no centro do labirinto, guardas o signo, a chave que abre todas as portas. Quantas mortes serão necessárias para que os olhos vejam? As palavras são o meu fio de Ariane quando me aventuro no teu labirinto-corpo, o teu sexo é o leito do Minotauro.
Páginas, aforismos.
A imaginação em soluços depois dos olhos, depois dos raçiocínios, depois dos sonhos, do inconsciente.
Quase nada.
Ou uma cabala que depois de descodificada abra o pós apocalipse.
Signos, páginas.
Por vezes quando penso na existência penso no volume das coisas e imediatamente imagino o volume das palavras, como o volume dos sois no Universo. Que espaço ocupam as silabas no vácuo das frases? Imagino poemas-constelações onde os versos são como planetas em orbita. Civilizações habitando planetas.
Existem poucas alternativas a este cenário tão próximo da verdade como da ficção científica. Poucas hipóteses para serem tentadas e verificadas por cérebros matemáticos e audazes.
Mas se o conhecimento fosse só Poesia este seria o Universo em que a nossa civilização habitaria.
Planetas-Arte
Todo o Infinito-Universo: o mesmo quadro,
o mesmo poema,
a mesma sinfonia,
por fim completo.
A maior parte das vezes não escrevo nada.
Por alguns momentos hesitei e quis escrever – produzo. Como se escrever fosse um acto produtivo, parte do ciclo, mais um elo na corrente económica do mundo.
Mas a verdade é que quando não escrevo sinto-me um pouco como um desempregado, olhando os ponteiros do relógio nos dias passando, sem poder partilhar a sensação de ter ganho no final do dia com outros trabalhadores, partes do todo, esperando que algo chegue.
Quando não escrevo não existo.
Não sou, não tenho justificação. Se não sublimar a vida não tenho vida.
Olho mais para lá, para as páginas que passaram e para as páginas ainda por virar e nesse olhar procuro a segurança suficiente para me levantar daqui.
Uma pergunta para a qual gostava de ter resposta:
- Porque é que as pessoas se levantam da cama todos os dias?
Rir é uma hipótese.
Rir é um “terreno disponível”.
O riso é a descompressão do medo.
Poder ter o Tempo.
O único olhar que deixei para trás reflecte-se no espelho imperdoável e duro da memória e persegue-me desde o início do Tempo.
Nunca pensei em mim como sendo outra coisa que não aquilo que sou.
O desejo de cruzar o Universo como se cruzasse um oceano, navegar pelo vácuo, negro, aportando em constelações como se fossem praias desertas de ilhas nunca antes visitadas.
Navegador do cosmos, novos mundos para descobrir.
Olhos que me observam, que questionam, procuram um sinal, algo em mim que lhes seja familiar. Os meus olhos no espelho serão os meus olhos?
A minha face.
O meu rosto reflectido será o meu rosto?
Uma outra parte de mim. Uma vontade.
Às cinco e um quarto da tarde sento-me na Tabacaria, que não é a “Tabacaria”, e peço o meu fino e bebo em pequenos golos o meu fino e escrevo neste caderno estas linhas, estas frases, estas palavras, estas silabas, estas
Nada disto é relevante. Não sou sociólogo, nem antropólogo, não estudo o comportamento. Então porque escrevo isto? Porque não tenho mais nada para escrever? Ou pura e simplesmente porque esta é a minha realidade e é aqui que me encontro e eu sou o meu único tema?
Haverá outra razão?
No momento em que paro não tenho ainda o cansaço no corpo. Durante o caminho não sinto a força gasta nos passos, só quando a memória cair sobre o tempo que passou desde que parti é que a fadiga dos músculos dominará o pensamento.
Só então é que o caminho será real, eterno em mim.
...
Sonhos de um viajante solitário. Pequenos quadros, esboços, esquissos, palavras ditas por entre crepúsculos no oceano, ventos que varrem os continentes, o espaço, negro, que separa as constelações.
Sonhos de outros planetas.
Tempo e memória de outras estrelas que não esta estrela, este sol real todos os dias.
Minúsculas gotas de água cristalizadas num segundo de Tempo flutuando na vastidão do vácuo.
A palavra: única, absoluta, irrealizável.
A possibilidade de vida noutros planetas, noutros mundos, a hipótese de outras Poéticas.
O desejo de divindade
O eterno.
...
Quando acordo de manhã, sempre, os olhos semicerrados, o corpo lento, o pénis duro, erecto, vivo, o cérebro aproximando-se do dia. Quando acordo de manhã e escuto a primeira luz invadindo o quarto e olho para a tua ausência sonho sentir as tuas mãos no meu peito, o teu cheiro,...
Os aros grossos dos óculos escuros ARMANI postos como uma bandelete no cabelo. O livro que lê, que imagino seja um romance qualquer desses muitos que há por aí. O cigarro suspenso sobre o cinzeiro, na outra mão.
Algo de vago, inclassificável, sem possibilidade de descrição.
Apenas alguém, sentado num café, ausente de personalidade porque desconhecido.
Provavelmente hoje; o mundo, dizem, pode acabar a qualquer momento. Quando isso acontecer quantas pessoas se aperceberão que esse é o ultimo segundo das suas vidas? Quantas poderão observar a vida a passar como um relâmpago diante dos olhos?
Quantas não quererão nada?
O Tempo limite.
A urgência do próximo parágrafo, como a urgência do vício, de consumar o vício, de uma droga, de sexo.
A masturbação. A mão que acaricia o pénis, que derrama silabas como sémen sobre o papel. A fertilização de um útero branco, virgem, imaculado.
Algo exterior...
As palavras dispensam existir. As palavras nomeiam-se e imediatamente são, nunca estão. Estrelas cadentes, lapsos na cadeia do Tempo.
Singularidades.
É nas palavras que o espaço se dobra e o tempo desaparece, perde-se...
Acaso, momento único.
Um olhar perdido. Um gesto, um movimento, a tentativa de um contacto e o desejo de o abraçar...
A ironia da confusão, de não se saber absolutamente nada sobre a ordem exacta do Universo e mesmo assim sorrir ao acordar todos os dias.
O que é que pode haver de mais ridículo que isso?
Pouco.
Pois. Sorrir. Desviar o rosto. Criar barreiras, como um casulo, ter outros destinos como horizonte desejado e não permitir cruzamentos
Há já uns anos que não bebo COMPAL de pêssego.
Há já uns meses que não fumo um charro.
O tempo afasta-nos de nós.
Só o tempo permite que a vida exista, mas isso não nos traz qualquer consolo, nenhuma paz.
A paz é o fim do futuro
Sem conflito a criação é impossível.
Um corpo para ter.
Para lá da roupa descubro-lhe os seios nus e toco-os, beijo lentamente o volume redondo dos seus seios, vejo-lhe nos olhos o prazer dos seios, do princípio do corpo, do prenúncio do amor.
Por ser em palavras poderá ser realizável? Primeiro duvida, depois medo.
Um sonho...
Como é possível desprezar tanto o comum dos mortais e ao mesmo tempo amar profundamente a Humanidade?
Desejar doentiamente sexo e abominar a companhia dos opostos?
Seres opostos.
Pergunto-me se há alguma verdade nas palavras? Se alguma resposta possível pode nascer das silabas?
O que é necessário para que as palavras engravidem?
Será que algumas frases, como algumas mulheres, recusam a si mesmas a hipótese de parto?
O que é que dá à história a possibilidade de se repetir?
Repetir, repetir, repetir, constantemente?
Qual é o ritmo que rege a partitura do Tempo?
Qual destas frases encontrará o seu lugar nessa partitura?
Eu não fumo, como será fumar?
Observo-os, o fumo saindo-lhes da boca em coreografias instantâneas e questiono-me.
A necessidade de lume pela necessidade de um cigarro.
Talvez a necessidade de uma caneta pela necessidade de uma folha de papel em branco.
Porque é que em tudo há ciclos?
Quem cuida das máquinas?
Queria mesmo que Deus fosse o mecânico e não quero ser irónico, mas acredito que se isto for real muita gente encontrará mais depressa o seu porto de abrigo.
Olear as máquinas, por exemplo.
Pode ser qualquer coisa, mesmo que seja irreconhecível, uma entidade alienígena ao pensamento, à nossa pequena racionalidade. Algo que não tenha significado na nossa linguagem, que os nossos conceitos não consigam decifrar.
Qualquer coisa que preenchesse o espaço, agora vazio e negro, que nos separa da Verdade.
( )
Tu porém nunca quiseste ter essa responsabilidade, nunca deixaste que o tempo cumprisse o seu mandato sobre a existência, nunca quiseste ser como qualquer outro.
Tudo não passa de um jogo.
Fugir ou caçar; eis a questão?
...
Quando não repito as mesmas palavras, repito as silabas, repito as letras, até os sons dos vocábulos se repetem de página para página, de texto para texto.
Haverá algo de mágico nisto? Algo cabalístico neste consciente-inconsciente jogo de repetição?
Talvez procure o ritmo que define a obra?
Ou então, é o próprio segredo escondido nos signos que utilizo que me procura?
Só tarde demais as portas se abrirão e o caminho que surgirá então apenas levará a mais signos e a mais ritmos...
Porque não deixar a página em branco?
Libertar a página de destino, dar-lhe a eternidade própria do vazio.
Quando escrevo há algo neste branco que morre e nunca sei se destas linhas nasce alguma coisa.
Se as folhas estivessem vivas conseguiria matá-las?
Se o que escrevo dependesse dessa morte, seria capaz de escrever?
Se não fosse apenas a minha vida a correr riscos nesta escolha, continuaria?
É demasiado fácil.
Tudo está em jogo.
Só de morte se constrói o passado e a eternidade é feita de corpos em decomposição.
Estas paginas nada mais são que fragmentos de um futuro também já em decadência.
Fragmentos de um futuro em decomposição.
Universo
Passado Futuro
Porquê esta obsessão com uma ordem? Com um desígnio escondido? Com uma verdade maiúscula, absoluta, que diga tudo?
Será que isso é necessário para vivermos?
Se olharmos à volta julgo que percebemos que não, que nada disso é necessário. Para viver basta acreditar.
...
Às vezes procurar uma coisa não é suficiente, às vezes é preciso mais.
Ter algo mais que nos faça olhar para o próximo dia sem ver, do lado de lá, o abraço aconchegante da morte.
O que será esse mais?
O passo anterior, a impressão do antes no pó do caminho, pegadas imaginárias, a marca.
Tudo o que fiz, o que quero fazer. Uma arca.
Lábios e folhas...
Concentração, arquivo, texto.
Um mapa com uma cruz que marque o local, algures, onde o caminho termine e, então, seja.
A maior parte do tempo fico imóvel perante o vazio destas páginas sem que do interior, de mim ou delas, apareça nada.
Quando subitamente, numa erupção, o que brota do papel branco, são silabas, signos, palavras que abrem trincheiras no espaço do que já foi dito, do que não foi dito...
Um possível encontro.
Um número, por azar, ao acaso, parte de uma fórmula.
Matemática do Tempo.
Einstein e Hawkings; os ícones pop da ciência contemporânea, junto com Pessoa e Bloom + Francis Blake. Que Universo surgiria dessa fórmula?
Uma Poética da existência, por se acaso...
Tudo calmo, por enquanto. O dia ainda mal começou, nada se mexe.
Há um leve vento que passa lento pela manhã.
...
Espero. Quase todo o tempo é feito de espera, de falta de esperança.
Portas que se abrem e fecham para sitio nenhum. Falta de horizonte.
Longe do mar, longe do vasto e do vazio, apenas terra como distância.
Preso, espero.
No fim outra porta se abre.
O passado, uma porta que se fecha.
...
Os rostos familiares que fazem o dia a dia, as horas que compõem o tempo, as cinzas.
A agitação. O que nos rodeia.
O nada que contempla sítio nenhum. Nada escuta, nada responde.
Com que facilidade...
Pó, as palavras não passam de pó.
Apenas mais uma folha.
Um anjo caído.
A alma, ou o que seja a alma, procurando existência, caindo
Algo que seja sem corpo, sem aproximações, total.
Repetir é uma maneira de fazer real, de tornar palpável.
Sublimar a vida.
A Arte é a sublimação da vida.
No fim do tempo pouco ficará para dizer, tal como no fim de cada dia pouco resta para continuar.
A rapidez dos momentos primeiros que não deixam marca, não deixam rugas, nem memória.
Tudo passa...
Até a vontade de ficar passa...
Nem mesmo o amor vive para sempre.
Continuar é uma palavra perigosa.
Quantas pessoas haverá que saibam realmente o que se está a passar no mundo?
Quantas registam as mudanças, os desvios, a desuniformidade da vida?
Provavelmente ninguém, nem mesmo eu.
A mera possibilidade de existirem palavras que digam tudo, que digam mesmo o desconhecido, o absoluto, impede que as conheçamos. É por existirem que as não podemos proferir. Se não existissem podíamos inventá-las.
Não há nada que o homem não possa inventar.
...
Passaram poucas horas, mas foi como se tivesse passado a idade do Universo, sobre o virar da última página. Tempo suficiente para morrer uma estrela ou criar uma civilização.
Pouco mais do que umas horas para o que vivemos agora.
Algumas frases são apenas sons desconexos, sem nada que as distinga do ruído da matéria negra, restos de uma mensagem cósmica velha de mais anos dos que os que se podem contar, o eco do vácuo, a ausência pura de sentido.
Criar frases que fossem como Big-bangs, que gerassem Universos.
Poemas tão ricos como constelações.
A seguinte formula:
Desejo, possibilidade.
Onda...
Conteúdo
Sempre a mesma coisa, o mero registo representa alguma coisa!?
Terá o conteúdo importância?
Será que apenas o gesto é relevante?
Basta querer?
Quem avalia? O Tempo?
...quando escrevo sou o veículo transmissor
o cabo
o impulso
o feixe
a frequência
a nota na partitura
Quando escrevo algo se transforma antes e depois de mim.
...
Pedro de Mendoza |
¨=¨
Há muito que não olhava para as pedras desta maneira, o espaço que separa cada paralelepípedo um do outro, pedras de calçada.
Há muito que não deixava cair a cabeça enquanto ando, como se necessitasse de me certificar de que os pés realmente andam, que o chão está de facto debaixo dos pés.
A cabeça ligeiramente tombada, os olhos fixos na geometria labiríntica dos passeios.
A sensação de ausência, um caminhar solitário.
Um coração despedaçado e a companhia das beatas esmagadas no chão, os despojos dos vícios quotidianos.
Quando se esta só, apenas se consegue estar mais só.
Ando indiscriminadamente pela rua. Desvio-me das pessoas como se me desviasse das ondas na rebentação.
Se eu morrer as ondas deixarão de vir bater neste mundo?
Pouso suavemente os meus passos nas rochas incandescentes, beijos de lava e de água salgada.
Todos os sítios que fiz meus, por quanto tempo sentirão a ressonância dos pensamentos que libertei neles?
Sento-me, escuto o ruído da ondulação. Quantos sonhos se escondem no silêncio profundo para lá da superfície?
Penso mergulhar mas apenas o espírito se molha.
Dispo-me de História,
Rasgo anos, séculos, milénios
Caem como trapos no chão
Botões saltam e rodopiam
E o meu corpo nu abre-se ao espaço
E sou como no início, como o primeiro homem
Inocente, chorando
Tenho apenas ânsia e medo como companhias
Não sou livre, vivo
Não tenho escolha.
Qual parte do meu corpo se esconde na solidão?
Fugindo do quê?
Quem vive no olhar que questiona o horizonte?
Como resistir à morte quando apenas as rochas conhecem o destino das coisas?
Fisicamente permanecerei aqui até ao último segundo do meu coração.
Debaixo deste solo,
Debaixo de raízes e pedras,
Ossos de vidas passadas.
Aqui talvez encontre um futuro.
Aqui os despojos e o início.
(Quando pouso os meus passos na terra,
quando procuro um caminho,
tenho neste chão
a resposta do tempo que passou
e esqueço...)
Escrevo sem saber o quê, sem ter uma ideia definida, um objectivo,
Escrevo, apenas.
Gasto o tempo que me foi dado, não olho a meios, não olho a nada.
Estou fora do tempo, navego no infinito, anti-matéria, flutuo na singularidade, não espaço, não tempo.
Ser uma estrela, um sol, ser o centro de uma galáxia no centro do Universo.
Escrever palavras que façam mais do que apenas dizer, que façam sentido, que sejam, palavras com vida própria, um significado real, absoluto, com a potência de seres vivos.
Frases que se pudessem abraçar, como corpos num acto de amor, frases com calor, húmidas, frases que gritassem, frases-orgasmo.
Construir um poema com sangue e ossos e músculos e pele e sentimentos e ter alguém para amar.
Mas nem a noite, nem a música, nem o branco desta folha, trazem as palavras que poderiam, as silabas que formam as palavras que seriam suficientes...
Depois olho para trás, para tudo o que foi e para os dias que tivemos e não sei quem sou, não sei mais quem realmente sou.
As certezas, os planos, os sonhos, os projectos, mesmo as memórias, que pensei ter não são mais.
Entretanto a dor, absoluta, corre pelo mundo
Como sempre correu
E eu, no meu quarto, escrevo, calmamente
Penso em não sentir
Não estar
E tudo o resto ser alheio a mim
Ter apenas as palavras como destino
Ou início.
Parando não deixo de sentir,
Ando sobre rochedos invisíveis, um cenário inventado, o desejo de alguém, longe
Que se materialize
A consciência de que tudo passa, como as nuvens no horizonte, para lá do pensamento
Os traços não-visíveis que formam a constelação do tempo, essa rede imaginária, teia de desejos, sobre os quais o mundo gira e o corpo envelhece,
Dia após dia, palavra após palavra...
Esperando sou o homem atento que observa o horizonte e anseia uma visão do amor
O que é a Poesia?
Que palavra poderá conter a resposta, que verso elucidará o vazio,
Quantos poemas para que o mundo seja
Poesia?
Raramente acordo sem que me sinta invadido pela absoluta fragilidade do corpo.
Não apenas do meu corpo mas de todos os corpos, todos os milhares de corpos que passaram, silenciosos como estrelas, pelo torpor vago da noite.
A alvorada
O despontar brutal da claridade
Os dias luminosos
Não me trazem o regozijo das coisas vivas.
A noite é uma antecâmara para a morte,
O outro lado.
Não há qualquer ressurreição no levantar da manhã,
Nem em caminhar pelo dia para mais uma noite.
As folhas que flutuam no ar
a antecâmara do chão
Que lentamente se desvanecem no humos
depois no pó.
O anúncio outonal de um novo mundo
A esperança de seiva pelos troncos
Para uma nova vida, um novo voo de folhas pelo ar
O fecho e o início de um ciclo
A majestade de um destino
A possibilidade de uma morte possibilitar uma vida
Nada disso me traz a satisfação de estar vivo.
A contemplação do espaço
nada mais
apenas
Só
Totalmente só
Não existindo resto, nem próximo
Nem perto
A vida não apresenta decisões
Faz-se.
As inúmeras formas de fazer um poema
Parecem todas demasiado usadas
Gastas por dentro, como um fruto podre
De uma arvore recheada com a inevitabelidade da morte
Por isso este poema não tem forma
Não nasceu, não tem destino
Este poema é, apenas
Como uma estrela que vivesse só uma noite.
Estou nu
Pouso a caneta sobre o papel
Penso
Estou a medir os pequenos gestos
Que involuntariamente deixo o meu corpo fazer
E que fazem o poema
Tenho vinte e quatro anos e
Quero escrever um poema
Olho para baixo e
Os meus pés deixam silabas,
Palavras, no papel
Pegadas, despojos, sombra projectada
Pela luz do que já fui
Do que é agora o poema.
Olhar em volta sem ver nada
É como se olha quando se olha para dentro.
A verdadeira contemplação do espirito pelo espirito.
A Razão é os óculos escuros do sonho
Quando se olha para o interior das ideias.
Finalmente.
A melhor palavra para um começo.
O fim de todos os princípios, de todos os verbos-inícios.
Finalmente, a palavra.
Procurar um caminho,
Uma porta que se abra,
Procurar a possibilidade de um olhar terno, um olhar tranquilo,
Sábio.
Os gestos involuntários.
Penso as hipóteses e pergunto se serão de facto hipóteses
Ou se desejo que o sejam sem lhes imaginar realidade.
Talvez me levante e ponha a cadeira no seu lugar,
Talvez me dedique à política como uma mãe a um filho, um militar a uma carreira,
Ou decida não partir, mas ficar
E beber mais um fino,
Talvez nada disto seja real, nem mesmo a caneta e o papel
Onde sonho que escrevo.
Os olhares das pessoas que passam, as palavras que proferem
E que não escuto, o ruído das horas como o ruído dos carros.
Milhões ou um numero tão vasto que seja impossível de proferir, muito menos de perceber.
Existirá uma palavra que possa ser como esse número?
Que abarque tudo?
O que é mais verdadeiro, a Matemática ou a Poesia?
Einstein ou Shakespeare, quem possui o Universo?
Que importância tem para o Universo o acordar de uma pessoa?
O infinito, dorme e sonha e acorda espreguiçando-se?
Se desejasse, podia respirar no fundo do oceano, ou no fundo do Universo, podia mergulhar no abismo como se saísse para a rua?
Todos os espaços seriam um espaço, uma única cama onde toda a realidade dormisse
Se desejasse.
E um grão de areia tem tantos sonhos como toda a humanidade
E as praias sentem a morte em cada onda que quebra.
Ao fim de um tempo as vozes ficam mais ténues,
Como ecos, fora de frequência.
Algo no acto de ouvir distanciasse dos sons
E a língua deixa de ter significado.
Tento olhar para o volume das silabas quando a voz as lança no espaço vazio
O gesto da mão no papel
Observar o voo das palavras pelo ar
O rastejar das palavras pelo papel
folhas caindo.
A coreografia das frases no papel, movimento
Poema-movimento-realidade.
Logo depois:
Acordar, sair do sonho,
Respirar os segundos, a totalidade do tempo.
No espaço-palco da página viver como no dia-a-dia do espaço-palco da vida.
Olhar para as coisas e imediatamente pensar em palavras
Ideias vindo em avalanche de uma parte desconhecida do cérebro
Neurónios efervescendo com o tumulto das frases.
Para, o silêncio.
Desejo de silêncio, descanso.
No fim do dia. No vento fresco pelos ramos do pôr-do-sol
Um prenúncio de lua invade os últimos segundos de luz.
A cor final.
No limite do pensamento,
Na periferia,
Na linha ténue entre o pensar e o sonho,
Aí nascem os momentos de sublime, os instantes de criação,
A hipótese de eternidade.
Poder ser tempo.
Pedro de Mendoza |
¨=¨